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Brasil: a estratégia de Lula para conter os efeitos da guerra e vencer as eleições

O aumento do preço do petróleo impacta a estratégia eleitoral de Lula, embora o encontre melhor posicionado do que outros países, como Argentina e Estados Unidos. O que mais há por trás da deterioração da imagem do governo.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um novo obstáculo, mais um em sua extensa trajetória pessoal e política: o forte aumento do preço dos combustíveis como consequência da decisão de Donald Trump e Benjamin Netanyahu de recrudescer o conflito com o Irã. Desde o fechamento do Estreito de Ormuz, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel àquele país no início de março, o impacto sobre a economia brasileira e a imagem do governo tem sido negativo.

O Brasil, apesar de ser produtor de energia, importa cerca de 30% do combustível que consome, o que o expõe à volatilidade do preço internacional do petróleo. Desta vez, não parece ser exceção, mas possivelmente um dos episódios mais críticos.

Nesse contexto, a Petrobras anunciou um aumento de 55% no preço do combustível de aviação, o que teve efeitos diretos sobre o custo das passagens. No entanto, o desenvolvimento dos biocombustíveis no Brasil tem permitido amortecer o impacto nas bombas, algo que não foi alcançado por outros países, como Argentina ou mesmo Estados Unidos.

“Enquanto nos Estados Unidos o preço do combustível para veículos subiu 35% desde o início do conflito, e na Argentina 17%, no Brasil o aumento foi de apenas 5%.”

Graças a essa alternativa, milhões de usuários podem optar por combustíveis derivados de fontes renováveis, reduzindo o impacto no bolso.

Nos últimos anos, a sociedade brasileira tem demonstrado baixa tolerância à frustração econômica. Um dado que reflete isso é a acentuada alternância política: na última década, o país teve quatro presidentes diferentes. Essa tendência parecia moderar-se até o ano passado, quando os indicadores econômicos — redução da pobreza, do desemprego e crescimento do PIB — fortaleciam as expectativas de reeleição de Lula.

No entanto, o novo contexto internacional reintroduz um clima de mal-estar, mesmo quando os efeitos da crise energética foram parcialmente contidos. Diante desse cenário, o governo desencadeou uma estratégia de duas frentes: por um lado, medidas econômicas; por outro, uma forte ofensiva comunicacional.

No plano econômico, foi anunciada a eliminação temporária do imposto PIS/Cofins sobre importações e vendas de diesel, junto com subsídios a importadores e produtores. No dia 6 de abril, o Ministério da Fazenda estendeu essas medidas ao biodiesel e ao combustível de aviação, além de implementar subsídios à produção local de diesel e à importação de gás para uso doméstico.

O pacote inclui também um subsídio de 850 reais por tonelada importada de gás liquefeito de petróleo. Paralelamente, o programa Gás do Povo — ampliado em 2026 — beneficia 15 milhões de famílias, que recebem até seis recargas anuais.

Lula, além disso, tem sido enfático com as empresas que recebem subsídios: elas devem repassar esses benefícios aos consumidores e não para seus dividendos. Nessa linha, o governo enviou ao Congresso um projeto para penalizar a manipulação de preços durante crises internacionais. O ministro de Energia, Alexandre Silveira, advertiu que serão aplicadas multas severas e até o fechamento de postos de combustíveis em caso de descumprimento.

“O governo desencadeou uma estratégia de duas frentes: por um lado, medidas econômicas; por outro, uma forte ofensiva comunicacional.”

Nem tudo é negativo para o Brasil nesse contexto. O aumento do preço do petróleo também incrementa a receita do Estado. Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o governo pode arrecadar até 40 bilhões de reais adicionais, o que contribuiria para mitigar o impacto da crise.

O segundo eixo da estratégia é comunicacional. Lula busca instalar claramente a ideia de que a crise tem responsáveis externos, apontando diretamente para Donald Trump. Nesse sentido, classificou-o como um “imperador” que “todo dia publica tuítes e cada dia diz uma coisa diferente”. Na perspectiva do governo do PT, trata-se de uma guerra irresponsável cujas consequências recaem sobre países alheios ao conflito. Vale lembrar que, em 2010, Lula participou de negociações para que o Irã limitasse seu programa nuclear, iniciativa que não foi respaldada pelos Estados Unidos nem pela União Europeia.

“Nem tudo é negativo para o Brasil nesse contexto: o aumento do preço do petróleo também incrementa a receita do Estado. O governo pode arrecadar até 40 bilhões de reais adicionais, o que contribuiria para mitigar o impacto da crise.”

Quanto ao clima social, as perspectivas voltam a se tornar negativas após um 2025 relativamente favorável. Segundo a pesquisa Latam Pulse, 57% dos entrevistados consideram que a economia está em mau estado, e 47% acreditam que poderão comprar menos no futuro (ante 30% em dezembro).

No entanto, 74% apoiam as medidas fiscais do governo — incluindo a reforma tributária, os programas de acesso a medicamentos e as isenções fiscais —, embora esse apoio não se traduza em intenção de voto.

“Essa deterioração não responde unicamente a fatores econômicos, mas também a uma característica que parece ter se consolidado na política brasileira: a impaciência do eleitorado e sua disposição a alternar o poder diante de contextos adversos.”

As pesquisas mostram uma tendência preocupante para o governo: Lula perde apoio enquanto cresce seu principal oponente, Flávio Bolsonaro. Segundo o AtlasIntel, o cenário passou de uma vantagem de dois dígitos para Lula há poucos meses para uma ligeira vantagem de Bolsonaro por três pontos em um eventual segundo turno. O nível de rejeição a ambos se mantém elevado, em torno de 45%, o que antecipa um cenário novamente polarizado, semelhante ao de 2022.

Tudo indica que a guerra não fez mais do que aprofundar uma tendência descendente que já se insinuava desde o final de 2025. Essa deterioração não responde unicamente a fatores econômicos decorrentes da guerra, mas também a uma característica que parece ter se consolidado na política brasileira: a impaciência do eleitorado e sua disposição a alternar o poder diante de contextos adversos, mesmo quando existem indicadores macroeconômicos relativamente ordenados.

“Até mesmo um habilidoso político e um líder histórico como Luiz Inácio Lula da Silva sofre os efeitos dessa nova forma de entender a política, gestada no Brasil desde o processo que culminou com a destituição de Dilma Rousseff.”

Já não basta um Estado ativo; não basta ter inflação, pobreza e desemprego em queda; não basta ter tirado o Brasil do mapa da fome; não basta ter os índices de mortalidade infantil mais baixos dos últimos 30 anos; tampouco basta um discurso governamental orientado a conter todos os setores.

A isso se soma, ainda, o enorme poder de lobby e de mobilização do evangelismo pentecostal, historicamente esquivo à esquerda brasileira. Este é o cenário que o presidente enfrenta em sua tentativa de alcançar um quarto mandato.


Fonte original da notícia: Diario Red
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O Diario Red (atualmente grafado como Diario.Red) é um jornal digital espanhol, fundado em 18 de setembro de 2023. A linha editorial do veículo é assumidamente de esquerda, buscando oferecer uma alternativa crítica ao que seus criadores chamam de “bloco de poder midiático”. Foi fundado pelo ex-líder do partido Podemos, Pablo Iglesias, e faz parte do ecossistema do Canal RED, um projeto multimídia que inclui televisão e rádio pela internet.