Quinta-Feira, 10 de Outubro de 2013

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Pará: Fazendeiro e ex-deputado federal é o principal acusado do mando da morte de Sem Terra

Segundo a principal testemunha do assassinato, João Batista Galdino de Souza, que fugiu, membros do MST vinham sofrendo ameaças de Josué Bengstson e seu filho.

Publicada: 11/09/2010 - 08h41m|Versão para impressão|

  • ex-deputado federal, Josué Bengstson, acusado da morte de Sem Terra
  • ex-deputado federal, Josué Bengstson, acusado da morte de Sem Terra
Publicada originalmente no Jornal Brasil de Fato.

Segundo a principal testemunha do assassinato, João Batista Galdino de Souza, que conseguiu fugir, membros do MST vinham sofrendo ameaças de Josué Bengstson e seu filho

10/09/2010

Marcio Zonta

de Marabá (PA)

Após três meses recebendo ameaças de morte o trabalhador rural, militante do Movimento do MST, José Valmeristo (Caribé), foi assassinado no dia 3 de setembro, no município de Bragança no estado do Pará (PA). O principal suspeito do mando do crime é o ex-deputado federal Josué Bengstson (PTB).

Segundo a principal testemunha do acontecido, João Batista Galdino de Souza, que conseguiu fugir, membros do MST vinham sofrendo ameaças de Bengstson e seu filho Marcos Bengstson, desde que acamparam próxima a fazenda Cambará, de propriedade da família, no fim de maio deste ano.

Ulisses Manaças, dirigente do MST no estado, afirma que as várias intimidações feitas pela milícia armada da família Bengstson e, pela própria polícia de Santa Luzia do Pará, foram denunciadas aos principiais órgãos estaduais e federais, sem que nenhuma providência tenha sido tomada. “Os trabalhadores já haviam contatado a ouvidoria agrária do INCRA, ouvidoria Agrária Nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Delegacia Regional do MDA, Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Pará e Secretaria de Segurança Pública do Pará”.

Desfecho

Souza conta que por volta das 9h, da última sexta feira, quando se dirigiam ao município de Santa Luzia do Pará -- justamente para prestar depoimentos na ação despejo ilegal feito pela polícia militar paraense no acampamento em julho-- a moto em que estavam foi fechada pelo carro de Marcos Bengstson, com três pistoleiros. “Daí parámos e eles fizeram nós entrar no carro”.

Levados de carro pelos pistoleiros, Souza detalha os momentos seguintes, “Quando chegou na beira de um lago um dos pistoleiros disse: aqui acabou o caminho, agora nós vamos conversar para vocês não mexerem mais com quem tem dinheiro”.

Souza relata, que Caribé ainda tentou argumentar, com os pistoleiros, mas em vão, “ele disse, não rapazes, vamos conversar, mas um dos homens disse: tempo pra conversar já passou, agora desce do carro”.

Na sequencia, o prometido por Bengstson aconteceu. “Nós descemos do carro, um homem carregava dois 38 e o outro uma pistola. Daí eles mandaram nós entramos na capoeira, de quatro, engatinhando, foi quando vi um sororocal (espécie de mata da região), escapei por ela. Eles ainda atiraram, contra mim, mas não pegou, encontrei um rio e desci por água abaixo, quando subi depois em uma ribanceira, escutei, ainda, quatro tiros”.

Polícia Especializada

Quando Souza chegou a um vilarejo próximo ao local foi levado por moradores até Bragança, para ligar para polícia. “a polícia de Santa Luzia do Pará chegou umas seis horas da tarde para me pegar. Ai pedi pra nós irmos lá buscar o corpo, pois eu sabia mais ou menos onde estava. O policial ainda me perguntou se eu tinha certeza, e mesmo depois dos moradores do vilarejo colocarem gasolina na viatura eles não foram”.

Souza avisou a família de Caribé, que o encontrasse lá na delegacia de Santa Luzia do Pará e acompanhado de mais acampados pediu novamente para os policiais iniciarem as buscas do corpo por voltas das nove horas da noite, “chamamos a polícia, de novo, para acompanhar a gente, para remover o corpo. Eles disseram que não ia, pois eles estavam muito cansados e que não poderiam ir”.

O jeito, conforme relata Souza, foi os próprios acampados procurar o corpo pela noite, “arrumamos oito motos e nós fomos, até lá no acontecido.Dez horas da manhã, achamos o corpo dele. Daí o sogro dele disse para não mexer no corpo, que o rapaz tava morto e era melhor esperar o IML pra remove”.

Mas, diante de tanta revolta com a omissão da polícia, o transporte do corpo, assim como já tinha sido as buscas, foi feito pelos próprios acampados. O corpo de Caribé foi amarrado ao corpo de um motociclista e levado até a cidade.

Defesa

Diante dos relato de Souza, que também estava marcado para morrer, o ex-deputado e fazendeiro Josué Bengstson, concedeu entrevista a veículos de comunicação do Pará atribuindo a morte, “a uma briga entre trabalhadores rurais”.

E, ainda acusou o MST de “responsabilizá-lo por ser contra sua campanha política, uma vez que pretende uma vaga na Câmara Federal”.

Souza, perante as manifestações de Bengstson afirma, “quem mandou matar foi o Marcos Bengstson, que é gerente da fazenda, e seu pai”.

A fazenda Cambará

As famílias que acampam nas proximidades da Fazenda Cambará reivindicam que a terra seja desapropriada para fins de reforma agrária, pois faz parte de uma gleba federal chamada Pau de Remo que possui 6.886 mil hectares é de terras públicas.

Josué Bengstson, só possui títulos de 1.800 hectares desse montante de terra. A Promotora da Justiça Agrária de Castanhal (PA), Ana Maria Magalhães de Carvalho, em nota sobre o ocorrido reconhece: “A Fazenda Cambará, em sua maior parte, está em uma gleba de terra pública”.

“Na área há dezenas de famílias que há muito sofrem esperando que o INCRA retome a área pública e os assente no local”, ressalta a promotora.

Currículo

O ex-deputado federal Josué Bengstson é conhecido pelo amplo apoio à bancada ruralista e as campanhas de criminalização contra os movimentos sociais do campo, “é a favor inclusive que o MST seja enquadrado pelo código nacional de segurança, o que torna suas ações criminosas”, aponta Manaças.

Bengstson, também, é suspeito de participar do escândalo dos sanguessugas em 2006, um esquema com empresas do grupo Planam para a venda de ambulâncias superfaturadas a municípios, por meio de dinheiro de emendas parlamentares (pelas quais os deputados e senadores recebiam comissões).

O esquema foi revelado por uma operação da Polícia Federal. Assim, à época, Bengstson, renunciou ao cargo de deputado federal, justamente para não ser cassado.

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