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Hugo Chávez: As carpideiras se calam

Na quinta-feira, ao abrir a caixa de ferramentas e exibir todo seu arsenal de preconceitos e manipulação, a imprensa brasileira volta ao normal.

Publicada: 11/03/2013 - 09h52m|Fonte: Observatório da Imprensa|Versão para impressão|

  • Hugo Chávez: As carpideiras se calam
Por Luciano Martins Costa em 07/03/2013 na edição 736

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 7/3/2013

Passadas as primeiras 24 horas da morte de Hugo Chávez, a imprensa brasileira abre suas caixas de ferramentas e começa a expor o que realmente pensam seus dirigentes sobre o controverso líder do movimento bolivariano. Em todos os jornais e nos blogs de revistas semanais de informação, entram em cena os autores do discurso radical que transforma o debate político em uma arena de “vale-tudo”.

O funeral ainda não acabou, mas os pitbullsda mídia não podem esperar: então, de um dia para o outro, muda-se completamente o discurso sobre o falecido, as carpideiras enxugam as lágrimas e tudo volta à rotina.

Em blog assinado por um devotado e veterano jornalista, Hugo Chávez é chamado de “bolívar-de-hospício”. Uma coluna geralmente dedicada à política nacional se aventura em campo ignoto para afirmar que Hugo Chávez “desestruturou a economia, jogou o país nas trevas do atraso institucional”. O texto afirma que o líder venezuelano atuou “dentro da lógica torta de que é necessário aniquilar a democracia para poder proporcionar uma vida melhor a quem precisa”.

Em outro jornal, a coluna faz um exercício de futurologia e prevê o fim da herança bolivariana: “Como ocorreu com o peronismo na Argentina e com o Partido Colorado no Paraguai, os herdeiros do chavismo tendem a se multiplicar – e guerrear entre si”, pontifica, misturando elementos históricos heterogêneos e até mesmo incompatíveis.

Aqui e ali, pipocam afirmações de que o chavismo tem prazo de validade curto, e um ou outro articulista repete como convicção uma impossibilidade aritmética, afirmando que a moeda venezuelana foi desvalorizada em 992% durante o governo Chávez. Esse número, uma bobagem redonda, foi publicado inicialmente pelo economista Moisés Naím, no Financial Times, e virou uma espécie de verdade assumida pelos inimigos do chavismo, repetida por aí sem maiores reflexões.

O economista Mark Weisbrot, que escreve para o New York Times e o britânico The Guardian, e mais recentemente tem seus artigos publicados pela Folha de S.Paulo, dedica a Naím o “prêmio de erro numérico”, observando que o máximo que uma moeda pode ser desvalorizada é 100%, no ponto em que cada unidade seria trocada por zero dólares.

Caixa de ferramentas

O mais recente artigo de Mark Weisbrot sobre o governo de Hugo Chávez foi publicado originalmente na segunda-feira (4/3), no Guardian, antes da morte do dirigente venezuelano, com título em inglês que poderia ser traduzido por “Os profetas do apocalipse da desvalorização venezuelana”. A tradução publicada na quinta-feira (7/3) na seção “Tendências/Debates” da Folha de S. Paulo é: “O céu não desabou na Venezuela”. Trata-se de um resumo, por questão de espaço, do título dado na edição do Huffington Post, que em português seria: “O céu não desabou depois que a Venezuela desvalorizou sua moeda”.

Na versão da Folha, que não contém uma série de críticas de Weisbrot ao viés dado pela imprensa internacional às notícias sobre o governo de Hugo Chávez, foi cortada a frase que se refere ao uso de “lógica distorcida” nas análises sobre a economia venezuelana.

Como toda a imprensa brasileira se baseia homogeneamente no material produzido principalmente por agências americanas, para rechear suas editorias internacionais, fica fácil reconhecer a origem das opiniões que emite. Andando a cabresto da imprensa hegemônica nos Estados Unidos, articulistas brasileiros repetem a bobagem segundo a qual uma moeda pode ser desvalorizada em mais do que 100%.

No cenário de radicalismo que caracteriza o debate político e econômico na América Latina, fica claro o papel da imprensa ao lançar mão da “lógica distorcida” para impor uma opinião hegemônica na qual Hugo Chávez só pode ser descrito como um “louco de hospício”, um “palhaço”, um “ditador”, e por aí vai.

A verdadeira personalidade do líder venezuelano e o real valor de seu legado nunca serão conhecidos pelos cidadãos que apenas leem os principais jornais e revistas e assistem os noticiários majoritários na televisão. Por isso, soava estranho que na quarta-feira (6), dia seguinte à morte de Hugo Chávez, os jornais parecessem tão compassivos em relação a ele.

Na quinta-feira, ao abrir a caixa de ferramentas e exibir todo seu arsenal de preconceitos e manipulação, a imprensa brasileira volta ao normal.

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