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Falsas provas pretendem desencadear conflito entre Coreias

Não faz menção a um dos maiores jogos(exercícios) de guerra que estava acontecendo no local. Entre Sul-Coreanos e Americanos, a causa poderia ser "fogo amigo".

Publicada: 29/05/2010 - 15h37m|Fonte: Kim Myong-chol, para o Asia Times |Versão para impressão|

  • Falsas provas pretendem desencadear conflito entre Coreias
O líder da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), Kim Jong-il, ordenou que as Forças Armadas de seu país, com um milhão de homens, estejam prontas para entrar em combate, de acordo com fontes militares da república norte-coreana. Na última segunda-feira (24), a Coreia do Sul anunciou a suspensão de todas as relações comerciais com o Norte, em retaliação ao torpedeamento da corveta Cheonan, no qual pereceram 46 marinheiros.

O Sul também proibiu todos os navios norte-coreanos de navegar em suas águas territoriais e prometeu retomar a propaganda psicológica em toda a Zona Desmilitarizada, suspensa em 2004.

"Nós não estamos nos preparando para a guerra, mas se a Coreia do Sul, apoiada pelos Estados Unidos e Japão, quiser nos atacar, o presidente Kim Jong-il deu ordens para que prossigamos a tarefa de unificar o país, paralisada desde 1953", relatou o comando das Forças Armadas.

A equipe de investigação multinacional liderada pela Coreia do Sul, que analisou o afundamento da corveta Cheonan na noite de 26 março, fez uma coletiva de imprensa em Seul na quinta-feira (20) para revelar o seu relatório forense, com falsas evidências, apontavam os dedos para a Coreia do Norte.

O relatório tem todas as características da pressa em invocar o familiar bicho-papão norte-coreano, numa tentativa de encobrir o papel dos EUA em um incidente de fogo amigo.

O relatório de 20 de maio é a única parte visível do iceberg que surge como "prova" de que o povo sul-coreano e o público do resto do mundo foram enganados.

É seguro afirmar que a apresentação de 20 de maio é mais uma mentira do século 21, como a que foi proferida em 5 de fevereiro de 2003, pelo então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, nas Nações Unidas.

Com o discurso de Powell, foi aberto o caminho para a invasão do Iraque pela "Coalizão dos Voluntários", liderada pelos EUA. O relatório de 20 de maio traz fortes riscos de uma troca de acusações se tornar uma escalada militar entre duas potências nucleares, a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e os Estados Unidos.

A americana CBS News noticiou em 19 de maio que os pesquisadores da força multinacional de investigação estavam divididos: "Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália, que auxiliou nas investigações, preparam-se para fazer um resumo de suas conclusões. Apenas a Suécia, que também enviou pesquisadores, ainda reluta em culpar os norte-coreanos".

Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália eram membros da "Coalizão dos Voluntários", o nome pomposo das forças que destruíram o Iraque, enquanto a Suécia se opôs energicamente à invasão do país árabe. O país nórdico, grande produtor de submarinos do tipo AIP, tem vasta experiência em guerra submarina em águas rasas.

Em 19 de maio, o britânico Financial Times informou a reação cética do povo sul-coreano: "No entanto, apesar do que parece ser o pior ataque da Coreia do Norte por mais de duas décadas, não houve transbordamento de ira popular contra Pyongyang. A perda do navio de guerra também expôs a 'desconfiança' dos sul-coreanos a tudo o que diz o governo e expôs também um sentido histórico de fraternidade com o Norte, sentimentos que podem suplantar o perigo".

"O governo parece estar escondendo algo. Se não, por que demorou tanto tempo para anunciar a conclusão? - disse Sung Hoon Bae, um auxiliar de escritório de 37 anos de idade. Muitos sul-coreanos dizem que seu governo está apenas procurando um bode expiatório conveniente para o que foi um erro por parte da marinha do Sul, ou o que pode ter sido incidente de 'fogo amigo' envolvendo os militares dos EUA", arriscou o jornal

Um periódico sul-coreano siamês do Washington Times, o Segye Ilbo, citou em 29 de março uma fonte militar: "O radar do tipo CIC, instalado na corveta Cheonan, é capaz de detectar facilmente qualquer torpedo dentro de um raio de 20 a 30 quilômetros, mas naquele dia fatídico ele não detectou sinal de ataque de torpedo ou de qualquer ameaça da Marinha da Coreia do Norte".

O diário conservador de grande circulação no Japão, Yomiuri Shimbun, citou em 21 de março que especialistas em segurança da Coreia do Sul afirmaram não haver "provas materiais que explicitem o ato de que um torpedo foi disparado. Não existe a demonstração clara da presença de um submarino norte-coreano na área, nem de lançamento de um torpedo. A Coreia do Norte provavelmente vai argumentar que os sul-coreanos adquiriram um torpedo norte-coreano de terceiros para lançá-lo contra a corveta".

Muito desajeitado para ser um caso convincente

A descoberta da arma de um suspeito na cena do crime não é determinante de sua culpa, pois poderia ter sido deliberadamente colocada lá pelo verdadeiro culpado, para imputar responsabilidade ao suspeito.

Para estabelecer a culpabilidade de um suspeito é essencial satisfazer pelo menos três requisitos. O primeiro é a demonstração de sua presença no momento do crime. O segundo é a comprovação do uso da arma mortal em causa, cometendo o crime. O terceiro é a determinação de como e porque o suspeito conseguiu fugir.

Como os três fatos marcantes indicam, os resultados finais e pedaços das provas que o acompanham são tão grosseiramente elaborados que não estabelecem o lugar da Coreia do Norte na cena da tragédia, nem estabelecem a culpa da Coreia do Norte. A razão é óbvia: os americanos e os sul-coreanos não estudaram Perry Mason e Sherlock Holmes.

Em primeiro lugar, a investigação multinacional fez quatro coisas:
Identificou que a causa do naufrágio do navio sul-coreano era um torpedo.
Revelou que alguns pequenos submarinos norte-coreanos deixaram seu porto um par de dias antes e depois do incidente com a Cheonan.
Mostraram fragmentos de um suposto torpedo, com marcações em escrita coreana, recuperados do fundo do mar.
Especula-se que o torpedo teria sido disparado por um submarino norte-coreano.

A equipe de investigação não deu provas da presença de um submarino norte-coreano na cena do naufrágio, ocupada no momento por um dos maiores exercícios militares do mundo, como ilustram as falsas provas:
Ela falha em identificar o nome do submarino suspeito, de pequeno porte, peça primitiva de museu da Coreia do Norte e de quem tripulava a embarcação. Encontrar um veículo da Toyota abandonado no local de um ataque terrorista não significa que o Japão ou a Toyota Motor Corporation foram os responsáveis pela ação.

Ela não discute a maneira pela qual o suspeito - e lento - submarino norte-coreano conseguiu penetrar nas águas da Coreia do Sul, operando em águas rasas (profundidade inferior a 30 metros) sem ser detectado por radares e sonares de última geração montados em navios americanos e sul-coreanos, e fugir impune depois da corveta explodir e afundar, elevando uma coluna de água (cerca de 100 metros), tão alta e de explosão tão sonora que foi testemunhada por um sentinela na costa da Ilha de Baekryon.

Não faz menção a um dos maiores jogos(exercícios) de guerra que estava acontecendo no local. Como disse a agência Yonhap, em 26 de março, a partir de Pyongtaek, na costa oeste da Coreia do Sul: "Os exercícios conjuntos Foal/Eagle, entre Coreia do Sul e Estados Unidos, atualmente em curso no Mar Ocidental, recebem agora os navios Aegis dos Estados Unidos, que chegam em 25 de maio à Base Naval de Pyongtaek, onde a Segunda Frota está sediada".

Não coloca em questão a presença nos exercícios militares de quatro navios Aegis, o USS Shiloh (CG-67), um cruzador da classe Ticonderoga de 9.600 toneladas; o destróier USS Curtis Wilbur (DDG-54), com mísseis guiados, de 6.800 toneladas da classe Arleigh Burke; o destróier USS Lassen de mísseis guiados da classe Arleigh Burke, de 9.200 toneladas e o Sejong, o Grande, um destróier de 8.500 toneladas sul-coreano com mísseis guiados, provavelmente apoiados por submarinos nucleares americanos e sul-coreanos do Tipo 209 e 212 submarinos AIP na fatídica noite de 26 de março.

Não faz menção aos explosivos alemães encontrados nos destroços da corveta, apesar de um anúncio inicial. O jornal Korea Times, de 7 de maio, diz que "A equipe de investigação multinacional também está considerando a possibilidade de que um submarino norte-coreano tenha disparado um torpedo alemão, utilizado tanto pela marinha sul-coreana como americana, em uma tentativa de disfarçar sua responsabilidade."
A Casa Azul (casa presidencial sul-coreana) ficou consternada com o anúncio de que os investigadores internacionais tinham detectado RDX alemã em meio aos destroços e pressionou o Ministério da Defesa para não aceitar os resultados, como denunciou a agência Yonhap, dois dias depois, em 9 de maio.

A equipe não deu explicações do fracasso em encontrar e recuperar dois mísseis anti-navio Harpoon e um tubo de torpedo perdido quando a corveta afundou, enquanto conseguiu recuperar o motor e a hélice do torpedo disparado.

A equipe de investigação produziu o que chamou de "prova conclusiva", uma notável marca escrita à mão em coreano: "Ilbon" ou "número 1", encontrada na seção de propulsão do suposto torpedo recuperado do fundo do mar.

Esta evidência torna-se a mais contra-produtiva, colocando em causa a credibilidade da investigação. O uso do "ilbon" na escrita coreana — e não em chinês — é diferente nas duas Coreias.

Na Coreia do Norte as pessoas normalmente usam "ilho" para o "número 1". "Ilbon" é como os sul-coreanos escrevem e na RPDC as pessoas usem "ilho" para "número 1". Os endereços na Coreia do Norte, por exemplo, usam muito mais vezes os números "ilho".

Uma teoria provável para este erro é o sentimento por parte dos investigadores de que havia uma ausência de provas concretas para impressionar os céticos sul-coreanos e o público mundial.

Desastre muda objetivos chave da política dos EUA

Um dos objetivos fundamentais da política do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e do presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, é trazer a Coreia do Norte de volta às negociações multilaterais, para persuadi-la a desistir de seu arsenal nuclear e evitar a exportação de armas.

Eles deveriam estar mais bem informados, porque o relatório do grupo de investigação de 20 de maio produziu quatro riscos sérios a esses objetivos, ao se precipitar em suas conclusões.

Risco n º 1: O relatório foi a propaganda gratuita mais eficaz e de alto perfil das armas baratas produzidas na Coreia do Norte.

Em 21 de março, o Yomiuri Shimbun comentou que: "especialistas em armas observam que os torpedos norte-coreanos não são menos confiáveis do que aqueles desenvolvidos pelos países ocidentais". Para a Coreia do Norte, que ganha dinheiro com a exportação de armas, "o naufrágio da corveta é uma boa oportunidade para demonstrar o desempenho dos seus torpedos, aumentando o seu valor como um item de exportação".

Segundo o Anuário 2005 do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), a Coreia do Norte exportou 3.250 mísseis antitanque e 1.250 mísseis terra-ar (SAM) para a Rússia entre 1992 e 2005. Exportou também 45 mísseis Scud-C (alcance de 500 km) para o Iêmen entre 2001 e 2002.

Risco n º 2: Prova de forma embaraçosa que o equipamento militar americano, tão propalado, caro e sofisticado, é um elefante branco e que a oferta de garantia de segurança feita pelos EUA para a Coreia do Sul não tem sentido algum.

O mundo sabe que a supremacia aérea e marítima e a presença de armas de alta tecnologia são inúteis contra os pequenos e esfarrapados guerrilheiros do Iraque e do Afeganistão. Seus explosivos improvisados de um dólar mandam para o inferno veículos de combate blindados de oito rodas, veículos Multiuso de Alta Mobilidade (os Humvees) e os veículos de Emboscada Resistente e Protegido contra Minas (MRAP).

O resultado disso será uma redução na demanda internacional de armas americanas.

Risco nº 3: Acabou-se, de uma vez por todas, a pequena oportunidade de a Coreia do Norte concordar em voltar à mesa de negociações e renunciar ao seu arsenal nuclear.

Risco n º 4: O agravamento das tensões na Península Coreana criou uma situação explosiva, na qual um confronto armado pode tornar-se uma guerra total a qualquer momento. Os EUA estão lutando em duas guerras, no Iraque e Afeganistão. A administração Obama parece optar por abrir uma nova frente.

O Exército Popular da Coreia foi colocado em prontidão para o combate. O supremo comandante Kim Jong-il está a um clique do mouse de transformar Seul, Tóquio e Nova York em um mar de chamas, disparando a sua frota de mísseis balísticos intercontinentais novinhos que possui.

Por que os dois presidentes colocaram em segundo plano seus compartilhados objetivos políticos? Que consideração foi tomada para que isto acontecesse?

A resposta é a necessidade urgente de manter em segredo do público que o trágico naufrágio da corveta foi o resultado de "fogo amigo" involuntário, por um vaso de guerra americano como um submarino nuclear ou um navio Aegis ou qualquer outro vaso da Marinha.

A revelação de que o afundamento teria sido "fogo amigo" iria gerar uma reação popular de revolta contra os Estados Unidos e manifestações e protestos contra as bases desse país na Coreia do Sul, no Japão e no resto da Ásia. Obama e Lee estariam em apuros. Principalmente para o último, que veria seu partido, no poder, ser sonoramente derrotado nas eleições governamentais e municipais de junho próximo.

Não há outra explicação plausível.

Kim Myong-chol é cientista político, japonês de origem coreana, é autor de vários livros e artigos em coreano, japonês e inglês, autor do livro "Kim Jong-il e a Estratégia para a Reunificação. Ele é PhD pela Academia de Ciências Sociais da RPDC e é muitas vezes chamado de "porta-voz" não oficial de Kim Jong-il e da Coreia do Norte.

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