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“Poder Evangélico”, o livro que explica porque é que estes grupos religiosos são um perigo para a América

Poder Evangélico”, o livro que explica porque é que estes grupos religiosos são um perigo para a América O investigador argentino Ariel Goldstein detalha a penetração da comunidade evangélica na política do continente, tendo Trump, Bolsonaro e Áñez como seus principais expoentes. Poder Evangélico”, o livro que explica porque é que estes grupos religiosos são um perigo para a América

Fiéis da Igreja 'Luz do Mundo' participam numa cerimônia em Guadalajara, México, 23 de Junho de 2019. Elises Ruiz / AFP
Fiéis da Igreja ‘Luz do Mundo’ participam numa cerimônia em Guadalajara, México, 23 de Junho de 2019. Elises Ruiz / AFP

Eles acreditam que governar é um mandato divino. Militam contra o aborto, a educação sexual, os direitos sexuais e reprodutivos, o feminismo e a comunidade LGBTIQ. Os seus pastores tornam-se famosos Youtubers. Ou estrelas dos meios de comunicação social, porque obtêm licenças de canais de televisão. Eles têm uma visão patriarcal da sociedade. Eles demonizam os seus opositores. Aliam-se tanto com a esquerda como com a direita. Já contam com muitas bancadas legislativas e ocupam ministérios em vários países.

E hoje podem exibir como alguns dos seus maiores triunfos a chegada de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro ao Brasil, mais o golpe de Estado que permitiu a Jeanine Áñez chefiar um governo de fato na Bolívia.

Se trata de uma comunidade conservadora que Ariel Goldstein, doutor em Ciências Sociais, analisa em ‘Poder evangélico’. Como os grupos religiosos estão ocupando a política na América”, o seu livro mais recente publicado na Argentina pela Marea Editorial, no qual alerta para os riscos envolvidos na penetração deste grupo nas autoridades públicas.

Ariel Goldstein

“Este novo Pentecostalismo não pode deixar de ser visto como perigoso para a democracia”, diz o autor numa entrevista à RT.

O problema, explica ele, é que introduzem na política categorias religiosas de puro bem e mal em que o adversário deve ser exterminado, o que prejudica a coexistência política e social.

“Quando o adversário é identificado com o diabo e os governantes compreendem a sua tarefa como uma missão divina, o perigo de uma deriva autoritária aumenta, ameaçando a coexistência democrática baseada no respeito pela pluralidade”, diz ele.

Estratégias

Goldstein decidiu investigar como os evangélicos ganharam tanto poder político nas últimas décadas. O que mais o impressionou foi o facto de terem aumentado a legitimidade social através do seu trabalho territorial em setores vulneráveis e um processo de arrecadação econômica que depois lhes permite construir os seus próprios meios de comunicação.

“Os dois casos mais bem sucedidos são os Estados Unidos e o Brasil, mas o que está a acontecer na América Central é tremendo, eles estão avançando muito rapidamente”, diz ele.

O que pode ser surpreendente, acrescenta, é que os grupos evangélicos se aliem não só aos políticos de direita com base na afinidade ideológica, mas também aos de esquerda, como no caso de Nicolás Maduro na Venezuela ou Andrés Manuel López Obrador no México, o que mostra o seu pragmatismo para ganharem influência na tomada de decisões.

O livro descreve a história e o estado atual do progresso desta comunidade religiosa no continente, com uma agenda comum e com líderes ou pastores locais na América Latina que são frequentemente treinados nos Estados Unidos ou que evangelizam a partir desse país.

Um pastor da Igreja Evangélica do Reino de Deus ora com os seus fiéis em São Paulo, Brasil, 22 de Março de 2020.Roosevelt Cassio / AFP

Embora seja evidente que existe uma estratégia comum e muito bem organizada, Goldstein esclarece que não adere à ideia de uma conspiração internacional porque isso simplificaria este processo.

Pelo contrário, diz ele, o que demonstra o crescimento dos grupos evangélicos é a plasticidade com que se adaptaram a todos os tipos de sistemas sociais e políticos, desde o sistema bipartidário nos Estados Unidos até ao sistema multipartidário no Brasil.

Menos católico, mais evangélico

O autor adverte também que este progresso anda de mãos dadas com o declínio do catolicismo, tão preocupante para o Papa Francisco, uma vez que nos anos 60, 94% da população latino-americana se identificava como católica, mas que em 2014 esse número já tinha caído para 69%, enquanto a proporção de evangélicos aumentou de 9,0% para 19%.

Ele assinala também que os países mais crentes da região, como o México e o Paraguai, são terreno fértil para o fortalecimento dos evangélicos porque têm sociedades muito religiosas apesar de serem estados laicos.

Pelo contrário, assinala, o Uruguai é um caso excepcional, uma vez que é o único país da região com um Estado e uma sociedade laicos, o que explica porque é que os evangélicos não conseguiram penetrar ali com o mesmo ritmo e intensidade que no resto do continente.

No que diz respeito as alianças políticas, Goldstein explica que para os líderes políticos progressistasé é tentador associarem-se aos evangélicos no início, mas que, como já aconteceu com Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, só os serve a curto prazo.

A longo prazo, diz ele, a agenda progressista contradiz a conservadora e o suposto apoio acaba virando uma armadilha porque as organizações evangélicas se tornam inimigas mas com muito mais poder. Esse é o risco que López Obrador está agora correndo, por exemplo.

Os Estados devem ser laicos

Para Goldstein, autor de outros livros como “Imprensa Tradicional e Liderança Popular no Brasil” e “Bolsonaro”. A “democracia brasileira em perigo”, é importante defender o laicismo do Estado com legislação que limite o poder das igrejas evangélicas e, portanto, a construção de figuras reacionárias.

Desta forma, acredita que, poderiam continuar a desempenhar um papel de contenção social nos bairros mais humildes, mas sem o elemento prejudicial do dogmatismo religioso imposto ao poder político.

No entanto, reconhece que no panorama atual a Igreja Católica continua a perder presença na América Latina, enquanto a Igreja Evangélica está ganhando fiéis e posições nos poderes legislativo e executivo.

“Eles são um fator de poder muito poderoso e perigoso. Os pastores associam-se aos políticos, dando-lhes uma bênção dividida, e introduzem a linguagem religiosa na política. Isto é muito prejudicial para uma vida democrática saudável, porque do outro lado só existe o inferno, o execrável”, adverte ele.

Por Cecilia Gonzalez
Tradução e adaptação de conteúdo por Guia Global.
Conteúdo originalmente publicado em RT