Press "Enter" to skip to content

“Eles estão numa situação de emergência nunca imaginada”: Os alarmantes números do coronavírus nas comunidades indígenas no Brasil.

Elas são uma das populações mais vulneráveis à pandemia e são as que mais sofrem com as limitações do serviço público de saúde brasileiro.

Vanderlecia Ortega dos Santos, enfermeira da etnia Witoto, oferece sua ajuda a 700 famílias frente à covid-19, Manaus, Brasil, 26 de abril de 2020. Bruno Kelly / Reuters
Vanderlecia Ortega dos Santos, enfermeira da etnia Witoto, oferece sua ajuda a 700 famílias frente à covid-19, Manaus, Brasil, 26 de abril de 2020. Bruno Kelly / Reuters

O Brasil registrou 240 mortes de indígenas por Coronavírus e 2.523 contágios em 93 comunidades indígenas diferentes, segundo dados fornecidos em 7 de junho pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que chamam a atenção para a subnotificação de casos, resultantes da falta de atendimento à saúde em muitas comunidades ou da ausência do teste covid-19, entre outros fatores.

O Brasil é o segundo país do mundo com o maior número de pessoas infectadas pelo Coronavírus (mais de 739 mil) depois dos Estados Unidos, e o terceiro em número de mortes (38.406), segundo os últimos dados do Ministério da Saúde, que foi obrigado a fornecer novamente as estatísticas completas do país após a controversa decisão do governo Bolsonaro de anunciar apenas os novos casos coletados a cada 24 horas, excluindo o total acumulado desde o início da pandemia.

No Brasil vivem um total de 305 povos originários oficialmente reconhecidos, e a maioria dos povos indígenas vivem em isolamento voluntário informa a Survival International, a maioria deles localizados na região amazônica.

Agentes sanitários indígenas da etnia Kambeba tratam um homem na aldeia Tres Unidos, Amazonas, 21 de maio de 2020. Bruno Kelly / Reuters

“Os profissionais de saúde estão enfrentando enorme precariedade em todo o país, mas especialmente na Amazônia e ainda mais nas áreas rurais. Muitas aldeias indígenas não têm sequer a atenção de uma equipe de saúde, o que dificulta o acompanhamento dos infectados”, diz Angela Amanakwa Kaxuyana, membro da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e membro do povo Kahyana, que vive no município de Oriximiná, no estado do Pará. “Nós indígenas não temos um roteiro específico para todos, mas sabemos por experiência que viver em harmonia com a natureza é uma garantia para proteger nossa saúde”, diz Amanakwa, que alerta para o risco de propagação de certas doenças do mundo animal se seus habitats forem desmatados.

A Amazônia concentra a maioria dos povos indígenas infectados

“Em meio à pandemia da covida-19, os povos indígenas da Amazônia brasileira vivem atualmente uma situação de emergência nunca imaginada”, anunciou a COIAB na última sexta-feira, que lançou uma campanha internacional para arrecadar doações. O objetivo é ajudar os povos indígenas na entrega de alimentos e produtos de higiene básica, bem como fornecer recursos para a compra de equipamentos de proteção e materiais de saúde para profissionais de saúde, que estão impedindo que a pandemia continue a se espalhar entre as populações nativas.

“O objetivo é que as equipes de saúde indígenas sejam capazes de fornecer pelo menos cuidados básicos às comunidades dentro das terras indígenas”. Para fazer isso, eles precisam ter máscaras e testes rápidos de covid-19 para confirmar que não estão infectados antes de entrar em cada aldeia”, explica Amanakwa.

Vanderlecia Ortega dos Santos, enfermeira da etnia Witoto, oferece sua ajuda a 700 famílias frente ao covid-19, distrito de Tarumã, Manaus, 26 de abril de 2020. Bruno Kelly / Reuters
Vanderlecia Ortega dos Santos, enfermeira da etnia Witoto, oferece sua ajuda a 700 famílias frente ao covid-19, distrito de Tarumã, Manaus, 26 de abril de 2020. Bruno Kelly / Reuters

As comunidades indígenas são uma das populações mais vulneráveis à pandemia e são as que mais sofrem com as limitações do serviço público de saúde (SUS). Do total de mortes indígenas por covid-19, 88% foram registradas nos estados brasileiros da Amazônia. As maiores cidades ribeirinhas ao longo do Rio Amazonas formam uma espécie de corredor fluvial com alta incidência de infecções por coronavírus, pois é a principal via de transporte da região, segundo estudo da Universidade de Pelotas, São Paulo, publicado na revista Medical Archive.

Diante da ameaça de contágio, a maioria das comunidades tem suas entradas e saídas de terras indígenas bloqueadas, exceto por necessidades básicas, incluindo o fornecimento de alimentos.

“A realidade de muitos povos indígenas é que eles não conseguem ser auto-sustentáveis apenas com suas culturas, estão confinados por três meses e em muitos casos a soberania alimentar foi perdida, há territórios que sofrem com o desmatamento ilegal ou a invasão clandestina”, diz Amanakwa, que é originário da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, localizada dentro da Guayana, uma fronteira geográfica com uma das maiores biodiversidades do mundo e, portanto, com um alto nível de preservação ambiental. Seu povo, os Kahyana, deslocaram-se para as aldeias mais distantes dentro de suas próprias terras indígenas, uma iniciativas das próprias famílias, como medida de proteção contra a pandemia.

Enfermeiro da etnia Kambeba faz um teste de coronavírus em um homem na vila de Três Unidos, estado do Amazonas, 21 de maio de 2020.Bruno Kelly / Reuters

“A comunidade é separada em núcleos familiares como quando vão caçar em família, passam algum tempo fora e depois voltam”, explica esta líder indígena, que detalha que seu povo mantém certos conhecimentos ancestrais que lhe permitem ficar longe dos núcleos urbanos neste momento, entre eles a extração de um tipo de sal de uma palmeira para quando não tem sal industrializado. No entanto, ele enfatiza que a maioria dos povos indígenas vive em uma época de extrema necessidade, o que tem levado muitos a se exporem aos riscos de contágio e a se mudarem para as cidades. Além da compra de alimentos, um dos motivos para a realocação tem sido a necessidade de receber o auxílio emergencial fornecido pelo governo, no valor de 600 reais que precisam ser retirados em agências bancárias onde se tem formado grandes filas.

Da mesma forma, a incerteza sobre o coronavírus reavivou as memórias de outras epidemias. “Meus pais e avós ainda se lembram da experiência traumática da epidemia que quase dizimou nossa vila após os primeiros contatos com o mundo exterior”, diz Amanakwa. De acordo com informações do Instituto Socioambiental (ISA), a Kaxuyana consistia de 300 a 500 pessoas quando uma epidemia de sarampo reduziu esta vila a cerca de 80 membros, dos quais menos de uma dúzia eram adultos com mais de 30 anos de idade e o restante crianças. “Minha aldeia também sofreu com epidemias de febre amarela. Embora tenham tentado se dispersar para combatê-lo, perdemos grande parte da população naquela época”, acrescenta o líder indígena. Hoje esta vila conta com um total de 382 membros.

O coronavírus está se expandindo rapidamente também entre os povos indígenas dos países vizinhos. No total da Pan-amazônia, que inclui os países do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, já se registram 6.996 casos de contágios em indígenas e 629 mortos por covid-19, segundo dados de 9 de junho da Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) e da Rede Eclesial Panamazônica (REPAM).

cluindo a Amazon Watch e a Rainforest Foundation, também lançaram, no início de maio, um Fundo de Emergência para a Amazônia com o objetivo de arrecadar doações para atender os povos originários da região. ” Nas fronteiras não há hospital, não chegam os medicamentos, não há apoio humanitário. Se não forem tomadas medidas urgentes nessas localidades haverá um etnocidio”, declarou José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador geral da Coica, por ocasião do lançamento do Fundo. Além disso, destacou sua preocupação sobre o rápido avanço do coronavírus: “Não podemos continuar esperando os governos nem as políticas sociais dos nove países”.

Luna Gámez@LunaGamp

Tradução e adaptação de conteúdo originalmente publicado em RT