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Gays indígenas, crianças transgêneros, diversidade sexual em migração e velhice: ‘Coronapapers’ LGBTI diante de uma pandemia

Ativistas de direitos humanos de uma dúzia de países analisaram questões comunitárias específicas no contexto da emergência sanitária global. Miles de personas participan en la Marcha del Orgullo Gay en la Ciudad de México. 23 de Junio de 2018.Alexandre Meneghini / Reuters Ativistas de direitos humanos de uma dúzia de países analisaram questões comunitárias específicas no contexto da emergência sanitária global.

Miles de personas participan en la Marcha del Orgullo Gay en la Ciudad de México. 23 de Junio de 2018.Alexandre Meneghini / Reuters
Miles de personas participan en la Marcha del Orgullo Gay en la Ciudad de México. 23 de Junio de 2018.Alexandre Meneghini / Reuters

Desde os gays indígenas na Bolívia até o impacto direto da pandemia sobre as bissexualidades na América Latina. Desde suas mobilizações nos bairros pobres da Argentina até as agressões que recebem do Estado no Brasil. De crianças transgênero a Transmasculinidades.

O quão variado é o assunto dos ‘Coronapers’ que foi publicado um estudo de 16 artigos escritos por ativistas de direitos humanos e diversidade sexual e compilados pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e intersex para a América Latina e o Caribe (ILGALAC), no contexto da pandemia do coronavírus.

Na introdução ao documento, Pedro Paradiso Sottile, diretor executivo desta organização, explica que o projeto faz parte da campanha “Ayudemos a ayudar”, que foi iniciada para conhecer o trabalho que a sociedade civil está fazendo para enfrentar os efeitos da covid-19 e para refletir sobre os desafios futuros que terão que resolver como comunidade e movimento.

“Nossa campanha #AyúdanosAAyudar nasceu como resposta, reação e proposta à pandemia, levando em conta a forte desigualdade histórica vivida pelos LGBTI+ em nossos países e que neste contexto foram expostas de forma violenta as terríveis consequências do estigma, discriminação, opressão, repressão, violência, assédio, preconceito, ódio e exclusão vividas pelas pessoas de nossa região”, afirma.

Tudo isso, acrescenta, representa outra verdadeira pandemia e é uma ameaça constante que, em muitos casos, eles devem contra-atacar com suas próprias vidas para sentir e decidir sobre suas sexualidades, desejos, identidades e corpos com liberdade e autonomia.

“Um grande quebra-cabeça”.

Paul Caballero, coordenador de programas e projetos da ILGALAC e compilador da coleção, reconhece que foi um desafio cobrir uma série de tópicos porque a pandemia afeta pessoas em níveis muito diferentes.

“Nós também nos propusemos a montar um grande quebra-cabeça onde várias gerações de ativistas se encontram e contribuem, e também para garantir que o alcance geográfico dos artigos seja amplo e diversificado. Para a equipe da ILGALAC é um luxo poder cobrir todo o continente e conhecer a situação das grandes metrópoles como México ou Buenos Aires, assim como das pequenas ilhas como Martinica ou Guadalupe”, diz ele.

Nos ‘Coronapers’, o ativista David Aruquipa Perez aborda a diversidade sexual e a identidade de gênero dos povos indígenas da Bolívia diante da pandemia, e explica que a informação é limitada porque a visibilidade da população LGBTI no país é limitada e começou nas cidades, onde há coletivos que lutam pela igualdade de direitos e identidade de gênero, com críticas à família homoparental e denúncias de discriminação, violência e crimes de ódio baseados em um sistema machista e patriarcal que mantém uma visão binária de sexo e gênero.

“Assim, a discussão sobre diversidade sexual e identidade de gênero nos povos indígenas é recente (…) A migração para a cidade é muitas vezes para se ‘salvar’ de práticas violentas e discriminatórias”, diz ele, observando o aumento da vulnerabilidade dos povos indígenas LGBTI durante uma crise de saúde que, por si só, tem um impacto negativo maior sobre essas comunidades.

Ele também diz que a sexualidade é um assunto tabu para o povo aymara, uma vez que esse povo estimula uma visão judaico-cristã do casal baseada no casal chacha-warmi (homem-mulher), “que nada mais é do que uma espécie de ideal de complementaridade que não é realmente realizado porque existem fortes preconceitos patriarcais e, em geral, é um mecanismo para encobrir essas diferenças e hierarquias sexuais. É um discurso que encobre o patriarcado andino”.

Por outro lado, a psicóloga mexicana Gloria Careaga Pérez, escreveu o artigo “Tensões e desafios para LGBT frente ao Covid-19”, no qual, entre muitos outros problemas, adverte sobre o que representa para as pessoas vivendo com HIV a falta de acesso a medicamentos e as dificuldades de aproximação aos centros de saúde no meio da pandemia, com a saturação que existe no atendimento médico.

A ativista argentina Dario Arias detalha o estado de emergência, alerta e mobilização das pessoas LGBTI+ nas favelas, que também são as que mais se contagiam em Buenos Aires, enquanto a feminista salvadorenha Bianka Gabriela Rodriguez se detém nas particularidades da migração LGBTI em seu país, Em muitos casos, essas pessoas são forçadas a deixar suas casas porque sofrem discriminação com base em sua orientação sexual, violência e pressão de gangues e pouco respeito por sua identidade, além da falta de oportunidades de emprego formais e nenhuma resposta do Estado à onda de crimes de ódio. Somente desde o início da pandemia, 60 casos de deslocamento forçado desta comunidade foram relatados em El Salvador.

Em “Recursos Solidários Diante de Pandemias Desiguais”, o norte-americano George Hale alerta para o aumento evidente de casos de homofobia e transfobia estatal no Panamá, Peru e Colômbia, onde a diversidade sexual não foi levada em conta na elaboração de programas sociais contra o coronavírus, e ataques específicos contra mulheres trans em toda a região.

Sem direito à memória?

Já a brasileira Janaina Oliveira diz que a necropolítica do governo brasileiro durante a crise do coronavírus promove o genocídio da população negra e LGBT+. Como exemplo, ela explica que cremações e enterros foram autorizados mesmo sem a certidão de óbito. “Isto significa formar uma massa de desaparecidos da Covid-19, sem direito à memória”. Esta medida afeta principalmente a população negra e LGBT+ que vive sozinha após ser expulsa do núcleo familiar, de modo que, se ninguém na família reclamar seu corpo, esta pessoa sequer será estatística”, denuncia.

Do Haiti, a feminista Edmide Joseph observa que a pandemia complica ainda mais a já vulnerável situação das pessoas da comunidade da diversidade sexual no país mais pobre da América Latina. “A crise econômica, a falta de infraestrutura e a negligência do Estado são agravadas por desastres naturais e pelo ódio no seu pior: as igrejas haitianas culpam a população LGBTI pela pandemia”, explica ela.

O pesquisador Moïse Manoel olha para a Martinica, Guiana Francesa e Guadalupe, territórios franceses da região, para dizer que “a confusão está surgindo e ativistas ou associações estão tentando tornar visível sua luta contra a LGBTphobia nas redes sociais para preencher a lacuna criada pelo distanciamento social”.

A cientista política Daniela Bolaños Torres e Daria Suárez Rehaag, diretora do Centro de Pesquisa em Direitos Humanos para a América Central, destacam que, embora já se saiba que a população mais velha é mais vulnerável ao Covid-19, no caso da população LGBT mais velha eles estão expostos a riscos ainda maiores do que seus pares porque têm o dobro da probabilidade de viver solteiros, sozinhos, com apoio limitado e em condições de maior desigualdade.

Laura Paris, psicoterapeuta e escritora colombiana que vive no México, analisa as condições colaterais que a pandemia pode produzir, entre elas o desequilíbrio psicológico das bissexualidades devido à crescente precariedade do trabalho provocada pela paralisia da economia, a falta de atenção e monitoramento de seu processo de hormonização, a suspensão das entregas de medicamentos.

Em “Isolamento e seu Impacto sobre as Crianças Trans”, a musicoterapeuta argentina Marianela Di Toro lembra que as pessoas em geral precisam de afeto, cuidado, vínculo, respeito à diversidade, participação significativa na família, no trabalho e na vida cívica. “Agora, se olharmos para as pessoas trans, podemos facilmente ver como a maioria dessas necessidades são violadas, de modo que se pode deduzir que uma grande parte do coletivo é impedida de acessar níveis adequados de bem-estar para levar suas vidas de uma forma saudável”, diz ele.

Mais adiante, Blas Radi e Camilo Losada Castilla, membros da União Latino-Americana Transmasculina, revelam que o impacto da pandemia nessa comunidade se reflete em maior pobreza, desemprego, falta de acesso à saúde, violência familiar, institucional e de parceiros, violações do direito humano à identidade de gênero e indiferença por parte das organizações sociais.

Cecilia González

Tradução e adaptação de conteúdo publicado originalmente em: RT