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Coronavírus na Guatemala, só a solidariedade supera o confinamento

Guatemala decretou estado de emergência em 26/03, mas população segue desprotegida de medidas de proteção que vão além do confinamento. Getty Images / Mundo ao Minuto.

Já se passaram dois meses desde o primeiro diagnóstico do COVID-19 na Guatemala e dois meses desde que o presidente Giammattei classificou a doença como uma gripe e nos mandou relaxar na praia.

Neste breve-intenso-interminável período fomos confinados; depois disseram-nos que tudo estava bem e superamos a crise; nos voltaram a confinar porque parece que nem tudo está tão bem; nos adoçam os ouvidos fazendo-nos crer que temos o melhor intensivo da América Central (Parque da Indústria), que finalmente resulta ser outro fiasco governamental-institucional: não há médicos suficientes, nem equipamentos de proteção, nem camas, nem medicamentos, nem alimentação digna, nem contratos para médicos, nem salários!!!!

Dentro de dois meses, aprovaram um aumento orçamentário multimilionário que não cobre as necessidades básicas, mas que também não chegou, e quando chegar será, para variar, com critérios comerciais, voltado para clientes. Nesse pouco tempo já nos chamaram de mal comportados, vítimas, conflituosos, espertos (quase saímos da desqualificação e insulto semanais).

No final dos dois meses, com apenas mil casos diagnosticados, no início da fase ascendente da epidemia (se for verdade, como afirmam os epidemiologistas, que um pico de contágio pode chegar na semana 16, ou seja, em meados de julho) vimos o colapso do sistema de saúde, já sem espaços para atenção, e o colapso do sistema de mentiras, meias verdades e ocultamentos que se constrói desde a maquinaria de propaganda

Sem controle da crise

O controle da crise da saúde foi perdido em pouco tempo (ou não existiu) por três razões principais, na minha opinião:

1. Falta de capacidade técnica e de recursos do Ministério da Saúde.

2. Opacidade na gestão da informação e centralização da tomada de decisões do Presidente, que impede a participação ativa de outras instituições e da sociedade.

3. Subordinação da estratégia de contenção da doença às reivindicações do empresariado organizado.

Além disso, em dois meses o governo perde aceleradamente o controle político. Enquanto as decisões tomadas favorecem e atendem demandas de empresariado organizado, deputados e prefeitos aliados, a sociedade vê que as ínfimas ajudas oferecidas (por exemplo, o bônus família de apenas um 1000 quetzales (cerca de R$ 761,33) não chegam, e se diminuem as possibilidades de trabalho.

Quando mais precisamos de instituições confiáveis, legitimadas, que enfrentem a crise multidimensional construindo consensos e grandes acordos, temos isto: funcionários incapazes de ver além de seus interesses corporativos.

O que é preocupante é que, perante a perda de controle político, o governo reforça o seu projeto autoritário e tenta impedir a livre expressão de críticas e de descontentamento, bem como a fiscalização do trabalho das instituições do Estado.

A solidariedade supera o confinamento

Em dois meses aprendemos também que a solidariedade pode mais que a ineficiente e pouco empática maquinaria governamental (as panelas comunitárias em vários municípios do país têm capacidade de atender a milhares de pessoas semanalmente); que a alimentação e aqueles que a fornecem são um setor estratégico que não pode continuar a ser negligenciado (tal como os trabalhadores de saúde); e que a fiscalização, a denúncia, a crítica argumentada (eventualmente apaixonada) são fundamentais para sobreviver, resistir e transcender este momento para mundos melhores (não é ilusão, é proposta); que as comunidades começam a exercer sua administração própria (ainda de forma parcial e limitada) mais apegada às demandas das pessoas.

Este pode ser um caminho: territórios autônomos, municipais e comunitários, com decisões:

1. Com base em informações atualizadas (não na interpretação alterada e louca que este governo faz de dados muito parciais).

2. Adotadas democraticamente, a partir de consultas com todos os setores, especialmente os prioritários, para enfrentar a crise (camponeses, saúde, comunicação, servidores públicos, comerciantes, refeitórios e iniciativas solidárias, tortillerias…) e os mais vulneráveis em termos de necessidades e exigências: economia informal, mulheres responsáveis pela sua família, trabalhadores demitidos, sem-teto e outros.

3. Ter em conta de forma indivisível a dimensão sanitária e social da crise. Ou seja, enfrentar a propagação do vírus sem condenar milhares de pessoas a doenças derivadas da fome ou diretamente à morte.

Enfim, em dois meses aprendemos (mas já sabíamos, não é que a pandemia nos faça superinteligentes) que as sabedoria e as construções coletivas e populares são mais certeiras e eficazes que as decisões tomadas no alto escalão. Embora quem as toma e comunica diga que são doutores.

Fonte: Andrés Cabanas – Rebelion.org