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“O maior repositório de coronavírus do mundo”: alertam que a próxima pandemia pode ter origem na Amazônia

A intervenção humana em áreas protegidas pode gerar desequilíbrios ecológicos e contribuir para o salto de vários vírus de animais para humanos.

Fumaça de um incêndio em uma área da floresta amazônica perto de Porto Velho (Rondônia, Brasil), 10 de setembro de 2019. Bruno Kelly / Reuters

A próxima pandemia pode ter origem na floresta amazônica, onde a penetração humana no habitat de outros animais pode gerar desequilíbrios ecológicos e contribuir para o surgimento de doenças adquiridas de animais. Foi o que alertou o ecologista brasileiro David Lapola em entrevista à AFP, ressaltando que “a Amazônia é um grande recipiente de vírus” e, ao eliminá-la, “estamos colocando a nossa sorte à prova”.

“O maior repositório de coronavírus do mundo”

Lapola explica que, embora a floresta amazônica ainda tenha extensas áreas preservadas, “há cada vez mais desmatamento, mais e mais degradação”. “Quando você gera esse desequilíbrio ecológico, você altera essas cadeias e, nesse momento, o vírus pode pular [dos animais para os humanos]”, explica o cientista.

Na verdade, o ecologista lembra que padrões semelhantes já foram observados em décadas anteriores com HIV, ebola e dengue. “É uma relação histórica, todos eles foram vírus que se disseminaram muito amplamente devido a desequilíbrios ecológicos”, diz ele.

Embora a maioria desses surtos tenha se concentrado até agora no sul da Ásia e na África – muitas vezes ligados a certas espécies de morcegos – a grande diversidade da Amazônia poderia fazer da região “o maior repositório de coronavírus do mundo”, diz Lapola, referindo-se aos coronavírus em geral.

“É mais uma razão para não fazermos esse uso irracional da nossa Amazônia, que agora está aumentando mais ainda,” ressalta.

“É melhor não testar a nossa sorte”

Nos primeiros quatro meses deste ano, foram desmatados 1.202 quilômetros quadrados de floresta amazônica, um aumento de 55% em relação ao mesmo período de 2019, segundo dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Neste contexto, o governo de Jair Bolsonaro enviou esta semana um contingente militar para realizar tarefas de prevenção e combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios na Amazônia.

Segundo Lapola, os números mostrarão se esta foi uma estratégia de sucesso, mas o caso é que o uso do Exército “para qualquer problema” no Brasil mostra “uma certa crise institucional e o desmantelamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama)“, lamenta.

“Está provado que o avanço do desmatamento depende de quem nos governa”. A boa notícia é que os governos são temporários“, diz o ecologista, que espera que “em uma próxima administração tratemos com mais cuidado esse enorme tesouro biológico, talvez o maior do planeta”.

Na opinião do cientista, é necessário “restabelecer a relação da sociedade com as florestas”, pois embora a propagação de novas doenças dessas áreas “seja um processo muito complexo, e difícil de precer, é melhor usar o princípio da precaução e não testar a nossa sorte”, conclui.

tradução e adaptação de conteúdo publicado originalmente em: RT