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Woody Allen e os Robôs: Cancelar a cultura é a nova censura?

Em 6 de março, a livraria americana Hachette anunciou que não iria mais publicar as memórias de Woody Allen, Apropos of Nothing.

Por Juliana da Silveira*

Imagem divulgação/ Facebook @WoodyAllen

A decisão da editora foi tomada, aparentemente, após manifestação de parte dos colaboradores da editora, que “cancelaram” a circulação do livro por lá.

Para quem não se lembra, Woody Allen foi acusado de agressão sexual a Dylan, garota de 7 anos, filha adotiva de Mia Farrow – que ele também havia adotado um ano antes – em agosto de 1992. A acusação foi trazida por Mia Farrow, então em meio ao processo de divórcio do diretor.

Essa prática, cada vez mais comum, têm sido apontada não só como uma decisão ética de empresas relacionadas com artistas acusados de qualquer crime ou erro, julgados ou não, mas também com a chamada cultura do cancelamento, uma espécie de versão digital do velho boicote.

Nessa cultura, portanto, quem aponta o dedo para aquele que será cancelado são os robôs, ou seja, os algoritmos que permitem contabilizar quantos votos o “réu digital” tem a seu favor e quanto tem contra. A partir de uma determinada notícia, denúncia ou até mesmo crítica pessoal, iniciam-se as votações, campanhas difamatórias que os diferentes sites vão reunir e rankear, dando assim o veredito, sem direito ao julgamento final.

Sem o objetivo de defender Woody Allen ou qualquer um dos cancelados diariamente, a questão é saber se estamos diante de uma nova forma de censura, comandada por soldados robôs, em códigos morais pouco transparentes. Se estamos, o que fazer para mudar esse estranho caminho que faz nascer uma nação de justiceiros incapazes de julgar, ao que parece, até mesmo suas próprias ações?

*Juliana da Silveira é Doutora em Linguística, pesquisadora de materialidades digitais, rumores e boatos em Mídias Sociais Digitais. Atualmente é pós-doutoranda (PNPD-CAPES), no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem da Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina.