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Valas comuns com vários níveis e indígenas subnotificados: Estado do Amazonas, em colapso pelo coronavírus

Nem seus deficitários sistemas de saúde pública nem seus cemitérios conseguem atender ao crescente número de contagiados e falecidos pela covid-19.

Vista aérea do cemitério Parque Taruma, em Manaus, estado do Amazonas, Brasil, 21 de abril de 2020. – Michael Dantas / AFP

Manaus enfrenta uma das situações sanitárias mais precárias do Brasil: com 135 internados em unidades de cuidados intensivos (UCI), considerando serviços públicos e privados, para uma cifra de infectados que já chega a 3.091, segundo dados do governo de estado de ontem, 29 de abril. O seu sistema de saúde público está atualmente sobrecarregado e carece de vagas de UTIs suficientes para acolher os pacientes mais graves.

Manaus, capital do estado do Amazonas, o primeiro a entrar em colapso sanitário depois que o governador Wilson Lima decretou a situação de calamidade pública em 23 de março, é a terceira maior cidade do Brasil com maior taxa de contagiados por número de habitantes, atrás de São Paulo e Fortaleza. Além disso, apresenta a curva de infectados mais pronunciada de todo o país. Em um mês, de 26 de março a 29 de abril, os casos confirmados de covid-19 passaram de 63 para mais de 3 mil.

Nesta cidade amazônica reside quase a metade da população do estado, ou seja, 1,7 do total de 4 milhões de habitantes, e as poucas camas da UTIs que há estão todas na capital, local difícil de chegar de muitas localidades do estado como resultado das complicações geográficas que se apresentam para atravessar a selva. Por esta razão, o governo do Estado duplicou os aviões para transportar doentes e passou de três para seis aeronaves, cada uma com capacidade para dois ou três pacientes.

Corpos em caminhão refrigerado no Hospital Joao Lucio Pereira Machado, Manaus, Estado do Amazonas, 21 de abril de 2020.
Bruno Kelly / Reuters

Os cemitérios também entraram em colapso, incapazes de acolher os 288 mortos que refletiam os últimos números. O prefeito da cidade, Arthur Virgílio Neto, declarou estar presenciando “cenas de terror”. Diante da incapacidade de enterrar as pessoas falecidas, os cadáveres foram acumulados em caminhões frigoríficos que os transferiram para as valas comuns que acabam de ser abertas, como medida de emergência, no cemitério Nossa Senhora Aparecida, o maior de Manaus. Quando se viu de novo saturado, o cemitério começou a cavar fossas mais profundas para permitir sepulturas por níveis em uma mesma fossa, o que deixou perplexo alguns familiares dos falecidos que relataram as cenas ao jornal Folha de São Paulo.

Os enterros em valas comuns tiveram início no mesmo dia em que foram decretadas as medidas de limitação de cinco familiares por defunto, bem como a proibição de entrada de jornalistas nos cemitérios. O Ministério Público do Estado do Amazonas abriu neste dia 23 de abril uma demanda de auditoria para revisar as medidas públicas que estão sendo tomadas no tratamento da pandemia. Nesta cidade, que tem um total de 11 cemitérios, registrava-se uma média de 30 enterros por dia antes da pandemia. Nas últimas duas semanas, a média ascendeu a uma centena de sepulturas e só durante o dia de domingo foram registrados 142 enterros.
A Câmara Municipal prevê que a procura de sepulturas continue a multiplicar-se e propõe custear custos da incineração as famílias que aceitarem.

A vulnerabilidade dos municípios rurais amazônicos

Embora a maioria dos casos estejam concentrados na capital, o coronavírus está brotando com especial intensidade em alguns municípios do interior do estado do Amazonas. Um deles é São Gabriel da Cachoeira, que já apresenta quatro casos positivos e dez suspeitos. Este município, situado no meio da selva e na fronteira com a Colômbia, um dado a ser observado é sua elevada população indígena, 85% do total, e pelos escassos recursos de cuidados de saúde: tem um único hospital para 40.800 habitantes, Não tem nenhuma cama de UTI e só tem 7 respiradores.

Marivelton Barroso, da etnia Baré, presidente da FOIRN

Temos medo de que a situação do estado se agrave demasiadamente e não seja possível sequer transferir os doentes para a capital

“Se houvesse possibilidade, seria necessário habilitar UTIs no município, mas o mais urgente é um hospital de campanha onde se possam tratar aqui mesmo as pessoas da comunidade com covid-19”, declara Marivelton Barroso, da etnia Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) a RT. Este líder indígena afirma que a população de São Gabriel enfrenta um risco iminente de desastre. Os casos de covid-19 que necessitem internação serão diretamente enviados a Manaus. “Também temos medo de que a situação do estado se agrave muito e nem sequer seja possível transferir os doentes para a capital”, acrescenta Barroso.

Transportar pessoas indígenas doentes para Manaus atualmente é um risco tanto para a saúde da pessoa doente quanto para a de seus familiares, expostos em todo o longo curso de deslocamento, bem como durante a estadia em um dos hospitais da capital. ” Não temos nenhum tipo de equipamento para tratar o coronavírus, solicitamos um hospital de campanha que, além disso, permitiria desafogar um pouco os serviços sanitários de Manaus que já ultrapassaram seus limites”, explica o líder indígena.

Trabalhadores da Saúde protestam contra a falta de materiais em frente ao hospital 28 de agosto, em Manaus, Estado do Amazonas, 27 de abril de 2020. Bruno Kelly / Reuters

No entanto, para além dos desafios burocráticos e orçamentais à instalação de hospitais de campanha distantes das grandes cidades, São Gabriel da Cachoeira enfrenta um segundo desafio para conseguir um tratamento diferenciado frente à emergência do coronavírus. Apesar de possuir uma maioria de população indígena residindo nas cidades do município, esta não figura nos registros do sistema de saúde público (SUS) como membros de povos originários e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) Só estão contabilizando os casos de indígenas contagiados nas aldeias comunitárias.

“Entendemos este fato como um ato de racismo institucional e exigimos a urgente revogação da portaria 070/2004 para assegurar o serviço a todos os indígenas, sejam ou não aldeões”, declarou em um comunicado público ontem a Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB)que exige que o governo mostre os dados específicos dos indígenas com covid-19 atendidos pelo SUS nas cidades.

O Estado do Amazonas tem a maior concentração de povos originários declarados do Brasil

Somente na cidade de Manaus residem cerca de 30 mil pessoas indígenas, de acordo com a Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Meio Ambiente (Copime) todos invisíveis aos olhos das autoridades políticas em caso de contágio e de necessidade de medidas sanitárias específicas às suas circunstâncias. O censo oficial de 2010 registrava cerca de 8 mil indígenas na cidade e cerca de 168.690 em todo o estado do Amazonas, que tem a maior concentração de povos originários declarados do Brasil.

O surto de Manaus se estende a centros de saúde indígenas

As Casas de Apoio à Saúde Indígena (Casais) são centros que combinam serviços ambulatórios e hospitalares com camas para internos e albergues para familiares. São geridas pela SESAI e localizam-se nos municípios com maior presença de povos indígenas para atender os doentes que necessitam de um acompanhamento mais estrito e que não pode ser realizado dentro das próprias aldeias indígenas.

Estes centros de cura tornaram-se um foco de contágio para muitos dos pacientes indígenas e seus acompanhantes que estavam ali internados por outras doenças. Na Casai de Manaus já há duas pessoas que deram positivo para o coronavírus e na Casai Leste de Roraima, estado também localizado na selva amazônica e com um elevado número de aldeias ancestrais, há quatro contagiados, além de outro na Casai Yanomai e outros quatro nos centros de saúde das aldeias.

“Nos contagiamos aqui, não viemos com ela. Há entre oito e dez pessoas com a doença”, explica Milton Makxi, indígena da etnia Hixkaryanak ao Amazônia Real. Makxi foi internado em março na Casai de Manaus após sofrer um derrame cerebral e hoje afirma que ele e outros pacientes internados estão claramente com sintomas de covid-19 e, até o momento, apenas um deles teve acesso a um teste que deu positivo.

Os testes não são os únicos que brilham pela sua ausência, na Casai de Manaus também faltam Equipamentos de Proteção Individual (Epis) para os profissionais de saúde. Diante da ausência de luvas, gorros ou máscaras para a renovação, muitos sanitários passam o dia com o mesmo equipamento. Por esta razão, os próprios funcionários lançaram uma campanha para angariar fundos para comprar material. A situação precária desses centros de saúde indígena, localizados em grandes cidades onde o vírus está se propagando a alta velocidade, faz com que possam estar atuando como focos de contágio de pessoas indígenas que poderiam, assim que sair se transformarem em vetores de transmissão também entre suas próprias comunidades.

“Hoje, o Amazonas, que está com o sistema de saúde em colapso, continua a ser o estado com o maior número de casos de contaminação e mortes por covid-19 entre os indígenas”, declara o Apib, que denuncia a subnotificação de casos, a falta de testes rápidos e os preocupantes focos de contágio nas Casais. “Isto é sério!” , acrescenta a organização que lidera o evento Acampamento Terra Livre (ATL), que este ano está sendo realizado online sob a temática da proteção das vidas dos indígenas contra a pandemia.

Até hoje, 29 de abril, o Sesai conta um total de 15 indígenas mortos e 92 infectados apenas entre os que vivem nas aldeias. No total o Brasil contabiliza até o momento 5.026 mortos e 72.739 contagiados.

Fonte: RT